


porque ser humano é gerúndio




26/11/2007
"Não existe nada que, mais do que o amor, ocupe sobre a superfície da vida humana maior espaço, e nada existe que, mais que o amor, seja tão desconhecido e misterioso. A divergência entre o que se encontra na superfície e aquilo que é o mistério do amor – eis a fonte do drama. Esse é um dos maiores dramas da existência humana. A superfície do amor tem sua corrente própria, rápida, cintilante, susceptível de modificar-se. É um caleidoscópio de ondas e de situações cheios de fascínio. Essa corrente por vezes se torna tão vertiginosa que arrebata as pessoas, homens e mulheres. Convencidos de que alcançaram o sétimo céu do amor, nem sequer de leve o tocaram. São felizes por um instante, quando crêem ter chegado aos confins da existência, e terem arrancado todos os véus, sem qualquer resíduo. Sim. Na verdade, na outra margem não restou nada, depois do êxtase não ficou nada, não há mais nada. Não, não é possível terminar assim! Ouça-me, não é possível. O homem é um continuum, uma integridade e continuidade – portanto não pode permanecer um nada."
_ Por que as mulheres se exibem tanto? Não, não estou falando de ficar bonita, se produzir... A beleza não precisa ter explicação, faz parte da vida; e o que é bonito é, sim, pra se mostrar – só não bote essa frase na boca de um cantor de axé ou de funk, por favor!
Ela sorriu. Ele continuou falando, inquieto.
_ A beleza de uma pessoa, seja interna, externa ou tudo isso junto, deixa qualquer ambiente melhor... Mas por que raios as mulheres não conseguem diferenciar beleza de sensualidade? Sim, veja só. Um belo decote, um vestido leve, um cabelo milimetricamente cuidado... tudo isso pode parecer não ter “nada demais”, mas em certas mulheres é mais sedutor do que se estivessem nuas. Aliás, a nudez completa, gratuita, nem é tão sensual assim. Tem mulher que, com um belo vestido, deixa qualquer homem mais excitado que muita Playboy da vida. Aí me lembro de uns religiosos fanáticos que dizem que as mulheres só podem usar vestido, porque calça seria “muito sensual”. Não sabem nada de sensualidade...
A sensualidade está na pessoa, o que ela veste só reflete isso. Tem umas que até tentam, mas não têm jeito pra coisa: quanto mais sensuais procuram ser, mais vulgares ficam. O máximo que conseguem é transmitir ao homem a mensagem: “sou fácil, vem logo se tiver coragem”. Outras, não: sabem exatamente como seduzir. Há mulheres que simplesmente exalam sensualidade por onde passam.
E isso não é sempre bom, sabia? Sério! Às vezes desconcerta a gente. É engraçado, pois parece que no fundo tudo o que nós, homens, queremos é sexo. É ficar louco por uma mulher. É não resistir quando ela olha e nos deixa bambos, sem ação. Não vou negar que essa sensação é boa, mas tem limite. É complicado, por exemplo, num ambiente de trabalho, quando você tem que levar as coisas a sério e uma mulher tenta te seduzir pra levar vantagem em algo, fazer você pensar menos antes de agir. Quantos casos eu conheço de homens que deram grandes mancadas na vida por causa de uma mulher sedutora...
É claro, o oposto também é verdade. Tem muito homem conquistador que deixa qualquer mulher na mão, quando quer. Mas o meu ponto é: as mulheres, muitas vezes, fazem isso sem perceber. Elas acham que estão só ficando bonitas, “bem apresentáveis”, mas não: estão se vestindo pra seduzir. É inconsciente. Acham que estão sendo simpáticas, mas não: estão mostrando seu poder de conquista. É claro, se lhe perguntam, coram e juram que não tem nada a ver, é só seu jeito de ser... Nem elas sabem o que fazem. Acham que estão se produzindo para “outras mulheres”, com aquele papo de que homem no fundo não sabe apreciar tanto a beleza feminina... Bobagem. Não há tantas lésbicas no mundo. O que elas querem, no fundo, é competir com as outras. Querem intimidar a concorrência. E pra que tanta competição? Ora, só pode ser pelo macho. Acho que entre os mamíferos, o ser humano é o único animal em que as fêmeas gostam mais de competir pelo macho que vice-versa. Fala que é mentira!
Ela riu.
_ Ok, basta beber um pouquinho que já falo demais... Mas tudo bem, o que eu penso é isso aí mesmo, minha consciência está perfeita... Digamos que só estou um pouco mais falante, com coragem de botar tudo pra fora...
_ Achei interessante.
_ Sério? Não vai me trucidar? Chamar as feministas?...
_ Não... só gostaria...
Pausa.
_ De lhe fazer uma pergunta.
Ele mudou a posição na cadeira, atento. Os olhos dela, até então baixos, se viraram pra os dele.
_ E comigo? Você acha que é assim também? Que estou sempre seduzindo, sem perceber?... Seja sincero!
Ele sorriu, fez um gesto, parou, pensou. Botou a mão no queixo, olhou pra cima, enquanto ela sorria, discretamente. Fez menção de falar algo, sorriu, ela retribuiu. Por fim, falou.
_ Não sei...
_ “Não sei”... isso não seria uma resposta tipicamente feminina?
_ Está querendo me enrolar, moça? – riram. – Ok... Mas falando sério... Acho que não, você não parece ser assim. Taí: acho que você é uma exceção à regra.
_ Nem inconscientemente?
_ Ao menos não demonstra.
_ Hum... quer dizer então que não sou sensual?
_ Não é isso. Digamos que você não esbanja seu charme, seu poder de conquista. Hum... talvez você seja uma daquelas pessoas que compartilham sua beleza com o mundo, sabem deixá-lo mais belo com seu sorriso, mas guardam seu jogo, sua sedução, para a hora que realmente importa. Não brincam com os homens ao redor, não jogam pérolas para os porcos.
_ Uau! Então eu sou tudo isso?
_ Creio que sim.
_ Então sou uma peça valorizada. Feliz o homem que merecer minha sedução...
_ Será um escolhido entre mil.
_ Nem tanto. Não conheço tanta gente assim.
_ Pois então trate de conhecer.
_ Não preciso.
_ Por quê?
Os olhos, que oscilavam para os lados, mergulharam nos dele.
_ Estou de vestido. Não percebeu?...


Dia desses, estava conversando pela rua com um novo amigo, que acabou de se mudar cá para Juiz de Fora. Estávamos falando sobre a cidade, quando ele comentou:Mas o homem de hoje continuava:
_ ...é que eu tenho uma entrevista de emprego hoje, e estou passando nas casas pra ver se consigo um prestobarba usado, ou qualquer coisa...
Dia desses, estava conversando na rua com um novo amigo, que acabou de se mudar cá para JF. Estávamos falando sobre a cidade, quando ele comentou:
_ Outra coisa boa daqui é que a política de Minas é educada, trata a gente com respeito...
Ele estava vindo de uma cidade de outro estado.
_ Lá era horrível, policial não respeitava mesmo. Nem pedia documento, já vinha tudo mal-encarado, tapinha na cara, mandava deitar no chão... Me abordavam sempre, eu tinha que andar fugindo de polícia, não gostava de ficar onde tinha policial por perto.
Olhei para ele. Não era, definitivamente, um sujeito mal-encarado, suspeito, mal-vestido. Pelo contrário, é uma pessoa simpática, alegre, passa uma boa impressão. Pelo pouco que o conhecia, via que não era de se meter em encrenca, andar com gente estranha; nem ao menos bebia. Ora, por mais imbecil que um policial seja, ele não sai revistando qualquer um na rua, tem que haver um motivo qualquer, por mais besta que seja, que o leve a suspeitar de alguém. Mas bastou um pouco mais de conversa para que a minha suspeita se confirmasse...
Era a pele. Meu amigo tem a pele morena, tem traços negros. “Motivo” mais que suficiente.
Embrulha o estômago imaginar que esse tipo de coisa acontece. Pior – imaginar que, infelizmente, não é um caso nada raro. Além de ser uma injúria sem tamanho, um crime, é uma atitude simplesmente burra. Pare pra imaginar quantos policiais, financiados pelos nossos suados impostos, estão neste exato momento “dando uma dura em cima de um nêgo” enquanto os verdadeiros marginais, de qualquer cor e classe, ainda circulam por aí. No Rio, aqui em Minas, no Acre...
O fato é que a conversa me intrigou, e me fez ficar filosofando sobre as origens do preconceito. Como será que esse tipo de pensamento surge na cabeça de uma pessoa? O que o causa?...
Pois hoje acordei com a campainha tocando. Minha irmã atendeu, e me chamou.
_ Bom dia, senhor... Desculpe incomodar, eu moro aqui na redondeza...
O mesmo papo de sempre, pensei. Ontem mesmo fiquei um pouco chateado com um rapaz que nos abordou na rua, enquanto andava com minhas irmãs e minha cunhada, pedindo uns trocados. Não gostei da forma como insistia, e sobretudo como olhava para as meninas. O tipo de situação que nos força a ser um pouco mais ríspidos, algo do qual realmente não gosto.
Mas o homem de hoje continuava:
_ ...é que eu tenho uma entrevista de emprego, e estou passando nas casas pra ver se consigo um prestobarba usado, ou qualquer coisa...
_ Só um instante – eu disse da janela, enquanto pegava uma cartela com dois aparelhinhos novos e descia pra entregar. Mas fui ainda um pouco ressabiado, pensando que ao entregá-los ele pudesse pedir um também algum dinheiro, naquele estilo “dá a mão, quer o pé”. E qual não foi a minha surpresa pelo seu contentamento:
_ Mas tão novos!
_ Sim.
_ Puxa, obrigado! Obrigado mesmo!!
E se foi.
E agora, relembrando uma gratidão tão sincera por algo tão simples, que me custa tão pouco, eu fico me perguntando porque raios não lhe dei também um sabonete, um pincel de barbear, algo que servisse como espelho. Acho que são os pequenos preconceitos do dia a dia, que infelizmente nos deixam tão “armados” nas situações, tão preparados para desconfiar das pessoas, evitando até perguntar se precisam de mais alguma coisa. Poderia ao menos ter-lhe desejado uma boa entrevista, e um “que Deus lhe abençoe”, além do meu tímido “de nada”...
Fico aqui me cobrando... Mas, ao mesmo tempo, agradeço a Deus por ter me dado essa pequena oportunidade de ajudar alguém com tão pouco, com meus prestobarba e meu simples sorriso. E rezo para que aquele homem tenha tudo o que merece na vida, enquanto eu vou aprendendo mais um pouquinho, a cada dia, a lidar com meus preconceitos, lembrando que as pessoas são diferentes. Como o rapaz de ontem e o de hoje. Como meu amigo e um marginal. Como eu e você.

_ Mamãe…
_ Sim, meu anjo!…
Foi hoje à tarde. Estava muito calor. Eu estava muito cansado. E ainda não estava indo pra casa… Tinha ainda uma reunião num bairro distante.
_ Mamãe, dentro da sua barriga tem uma… uma sementinha?
_ Tem sim…
_ Que foi… que foi o papai que colocou, né?
_ Foi.
_ E vai crescer e crescer… e virar o meu irmãozinho!!
Ela não aceitou o acento que ofereci. Não a Clarinha, mas sua mãe. Recusou, disse que o ponto em que iam descer estava próximo. Recusou. Mesmo carregando a sementinha na barriga.
Deveria ter insistido mais. Com toda a certeza. Mas nem foi o cansaço que me impediu; foi a falta de jeito mesmo, perante a simpatia daquela mãe. O cansaço já tinha ido embora. Ou melhor, ainda estava lá… Mas o sorriso daquela menina deixou-o muito mais leve, e – por que não? – prazeroso…
_ Segura, meu anjo! Segura firme!
É nessas horas que eu gostaria de conseguir ser um pouquinho mais extrovertido com estranhos, insistir em algo que é óbvio: aquele lugar não era meu, era daquelas duas que estavam ali em pé, espremidas no ônibus cheio, e do garotinho-semente que, apesar de provavelmente estar mais confortável que todos nós ali, também merecia sacudir um pouco menos. Mesmo que os lugares reservados para grávidas estivessem lá na frente, ocupados por estudantes que conversavam, animadas. A barriga ainda estava pequena, vale dizer; provavelmente só eu, enxerido ouvindo a conversa alheia, havia percebido que tinha uma “sementinha” ali dentro…
Mas não deu tempo de pensar muito mais. Clarinha logo desceu com sua mãe, me deixando um sorriso no rosto, e um pequeno peso nos ombros por não saber como retribuí-lo…
O mínimo que posso fazer, pensei depois, é tentar passá-lo para frente. Não vai ser a mesma coisa, mas pelo menos é uma tentativa.
Que nossa semana seja, então, repleta de sorrisos de crianças! Se não de verdade, ao menos simbolicamente…
Fechado?
(JF, 24/11/2009 -originalmente publicado no Vivo pela Vida)
