terça-feira, 19 de junho de 2007

Natália

As badaladas soaram como pancadas no cérebro. Cada “péin” que o sino dava era um “péin” na alma de Natália. “Merda de cidade histórica!”... Na verdade até gostava daquelas casas antigas, aquelas ruazinhas... tinha uma energia legal. Mas, poxa, as pessoas precisavam ser históricas também?

_ Humzghjmf!

Sinos avisando da missa. Todos os velhos da cidade já sabiam os horários das missas de cor e salteado, incluindo as de sétimo dia. Pra quê então esse sino, meu Deus? E logo no domingo, dia internacional da ressaca?

Lá na cozinha o som da TV. A Paulinha já devia ter acordado. “Ou então esqueceram a TV ligada ontem. Pô, mas por que ligariam a TV em noite de zoeira? Povo doido...”

E a cabeça a latejar. O corpo moído, sujo, vestido pela metade. Dormiu de bruços, jogada em cima da calça jeans, que merda. Por isso o seio direito doía tanto. Vontade de voltar a dormir, mas o corpo não estava nada relaxado. “Ontem o milk-shake foi bom”, pensou olhando o sutiã jogado em cima da cômoda. Só então se lembrou de que não dormira sozinha. “Vixe! Ou eu acordei tarde demais ou o gringuinho não gostou do meu ronco”... Dele, só restara um copo de caipirinha pela metade. “Pô, o son of a bitch nem pra deixar um bilhetinho...”

Tentou enrolar na cama mais meia-hora, não adiantou. A ressaca puxava a enxaqueca, que já tava encorajando a mala da sinusite a dar as caras... Levantar de uma vez, o dia tava ali, tinha que encará-lo. Não tinha remédio.

Ih! Por falar em remédio...

_ Oi...

Só depois de falar conseguiu abrir os olhos e ver que era a Rô que estava sentada na mesa da cozinha, vendo TV enquanto comia pão dormido com toddy. Sua cara também não estava das melhores.

_ Tarde, fia! Acordou cedo, heim?

_ Graças a Deus – em tom de ironia, apontando com a cabeça para a igreja, vista da janela. Se pudesse um dia ainda derrubava aquele sino lá de cima...

_ Deus acuda quem cedo madruga.

Abriu o armário. Um pacote de cream-craker. Melhor que pão de ontem.

_ Tá chique, heim? Pegando alemão... und dieser bund!

_ E você, madrugou hoje?

_ Literalmente. Não dormi. Me dá um biscoito?...

O desjejum deu o mínimo de força necessária para o banho. Corpo lavado, a alma ainda não.

_ Rô!

_ Hum...

_ Tem pílula do dia seguinte aí?

_ Não... Mas tem Prozac, serve?

_ Vai dormir.

_ Uááááááá...

A rua deserta, ainda suja da noite anterior. “Festa é que nem casamento às pressas: na hora é uma maravilha, uma adrenalina só... mas o que sobra é só sujeira...”

Uma mãe passeava com os filhos, um casal andava de mãos dadas. Vinha à mente a noite, a bebida, o alemãozinho perdido no interior de Minas:

_ Ih, carnaval pra gringo é lá no Rio!

_ Eu querria irr parra Amazônia, mas parrei na meio da caminho!...

Foi o único diálogo em português; daí pra frente ela preferiu gastar o inglês que aprendera no cursinho. Uma utilidade enfim! E o carinha gostou, soltou mais piadas ainda. Tava falando até demais, precisou de um cala-boca. Daí pra frente as lembranças não eram tão nítidas, o álcool parecia programar a memória pra arquivar tudo na gaveta “sonho”...

_ Non ecxiste pecado abaixo do Ecuadorr!...

Um certo professor de filosofia fora além: decidira, certa vez, matar qualquer tipo de pecado, em qualquer ponto do planeta. Todos, independente de credo, cultura ou o escambau, mereciam gozar da mais plena liberdade. Ninguém tinha o direito de instituir o pecado!

_ Então ninguém tem o direito de pecar? – ela provocou, certa vez.

E ele, sorrindo:

_ Não. Porque pecar é ir contra a liberdade. Se você peca, tem que se redimir, senão vai pro inferno; você não tem escolha. Temos é o direito de errar, e fazer o que quiser com o nosso erro! Ninguém tem nada a ver com isso, a gente é que tem de aprender o melhor caminho pra gente. Levem esse conselho para a vida – e subia na cadeira, exaltado – Errem bastante!! Façam muita merda na vida! Mas nunca, nunca mesmo, deixem de ser livres. Pois ninguém tem o direito de não ser livre: a liberdade é a única condenação do ser humano!

A liberdade, uma condenação. Coisa de ateu. Se bem que, se lembrava agora, já tinha ouvido um padre falar algo parecido, certa vez. Era um padre “cabeça”, daqueles metidos a teólogo:

_ O livre-arbítrio é condição sine-qua-non da natureza misericordiosa de Deus para com o homem. Não podemos escolher não ser livres, Deus nos criou assim! Enquanto o pecado só nos aprisiona, é pela liberdade que Ele nos concedeu a salvação! E a mais esplendorosa manifestação de liberdade é escolher ser servo de Deus...

Ser livre pra escolher ser submisso? “Eu preferia ser escrava do pecado; ao menos não estaria me sentindo tão culpada por estar rodando a cidade atrás de uma mísera pílula. Se minha mãe soubesse tinha um troço, diz ela que é aborto”. Olhou pra barriga: “Ih, será que tem gente aqui dentro? Ah, se tiver foda-se, menos um pra ter de aturar a hipocrisia desse mundo!”

Riu de si mesma. “É, Nat, quem diria, você falando desse jeito... Até parece, quem vê até pensa que é a mais cruel das criaturas. É filha, você está aprendendo a ser sarcástica. Hehehe...”

Rir ajudava, aliviava a tensão. Não conseguia tirar aquela droga de culpa religiosa da cabeça. Mas lembrar do professor lhe dava um certo alívio...

_ Só não erra quem não vive!

Sim, ela não tinha culpa, pois não havia pecado: havia erro. E erro é conseqüência, ela estava aproveitando a vida como nunca, e isso bastava. Compensava os erros...

Mas...

Qual era o erro, mesmo?

Será que tinha errado? Fizera tudo conscientemente, não faria diferente se pudesse voltar atrás... Estava meio bêbada, mas isso também foi uma escolha. Sabia do que poderia acontecer, não conhecia o cara, sabe-se lá quantas brasileirinhas aquele gringo já havia pegado antes, mas não ia pedir exame de sangue, né? Na hora do “vamo-vê” não tem essa, um gatinho daqueles não tinha cara de aidético, e além do mais quanto mais proibido mais vontade dá de fazer, o cheiro de perigo é afrodisíaco... E além do mais, como diria uma amiga: “se fosse pra não correr risco nenhum, já tinham inventado preservativo bucal!”

“Não foi erro, Nat. Só erra quem tenta fazer tudo certo. E isso você definitivamente não estava tentando...”

_ Pecado é tudo aquilo que fazemos, conscientemente, que nos afasta do que é melhor para nós mesmos e para os outros... e conseqüentemente nos afasta de Deus.

Então é isso, seu padre? Não há erro, mas pecado?

“Chega, que droga! Merda de filosofias!” - o fato é que nem o professor nem o padre resolveriam seu problema. Os erros e pecados dos homens são sempre mais fáceis de remediar, eles às vezes se dão o direito de nem cogitar a hipótese de terem feito algo e errado. Que o diga aquele alemãozinho - aqui não tem pecado, então não tem importância sumir sem deixar vestígio. Nem a camisinha importada furada o danado deixou pra trás, será que fazia coleção? Ou esqueceu de tirar?...

Mas – e era o que mais lhe incomodava – a noite tinha sido boa!... Fizera a sua festa, experimentara sensações indescritíveis... Se aproveitou da empolgação daquele garoto com as “maravilhas do Brasil”, fez com que ele lhe fizesse explodir de prazer durante o tempo em que esteve em seus braços. Um dia alguém disse que o orgasmo era uma forma de se chegar a Deus. “Não sei... sei que isso não é tudo, mas se tem algo que seja mais que isso, um dia eu quero esse algo!!... Mas enquanto eu não encontro...” O que dizer? Se Deus é vida, aquela era a forma que tinha de se sentir viva!

Sim! Viver... aproveitar cada dia como se fosse o último, mandar o amanhã às favas. Viver... e não ter a vergonha de ser feliz, como dizia aquela música. “É isso o que eu quero, porra! Onde já se viu, deixar de aproveitar a vida pra ter que ficar se preocupando com o depois? Eu sou prevenida, sempre me cuido, mas não tem jeito, acidentes acontecem, ia acabar acontecendo um dia...” E aquilo ainda não foi nada, imagina se pegasse algo mais sério. Aliás, como saber se não tinha pegado? E se tivesse, a culpa era dela? O que fazer??? “Putaquepariu, isso tira o tesão de viver!!!...”

“Não vos preocupeis com o dia de amanhã”, dizia a bíblia. “Então porque Deus fez com que o álcool e o sexo gerassem tanta morte... e tanta vida indesejada? E ainda quer que sejamos felizes... como? Se o perigo é amigo do prazer, se a inocência só nos faz apanhar na vida... Quanto menos me preocupo com o amanhã, mais corro riscos. E, quanto mais me preocupo, menos vivo. Quer saber? Que se dane!!”

Uma igreja evangélica: “Deus é amor”. Riu. “É, então eu acho que ontem eu fiz Deus...”

Parou no alto do morro, vista de boa parte da cidade. O sol de outono dava vida aos morros, mas não chegava a esquentar. Luz sem calor. Vida sem paixão.

De repente, imaginou o eco que daria se gritasse dali. Seria estrondoso, a velharada da cidade ia ouvir tudo. Mas preferiu gritar sem abrir a boca...

Mas não deixou de gritar.

_ Deus! eus-eus...

_ Ontem eu fiz você, sabia?? ia-ia...

_ Era um alemãozinho, fiz horrores com ele! ele-ele...

_ Ele era bonitinho, mas não sabia chupar... ar-ar...

_ OUVIU, DEUS?? EUS-EUS...

Parou.

O último grito fora de verdade. Sem perceber, o urro saíra da boca aberta. O mundo ouvira.

Uma brisa envolveu sua nuca, o arrepio assombrou a espinha. Os olhos arregalados, assustados com o que ecoara em sua mente no milésimo de segundo anterior.

O eco, pois.

Não uma simples repetição, mas a revelação daquilo que fica. Aquilo que sobra, a pequena expressão que toca em meio ao mais estridente dos gritos. A última palavra. A última sílaba...

"Deus-eus-eu"...

E o eco do eco se dá no fundo da alma: o grito agonizante do que resta do resto. Deus, um grito do eu. Eus ecoavam num único ser, suspiravam vivendo e morrendo a cada instante no peito daquela pequena estudante de Bioquímica... Química da vida...

Uma nuvem branca deslizava suavemente sob o azul do firmamento – que, de firme, não tinha nada.

_ E... e eu?

E a primeira lágrima, enfim, atingiu o chão...


Gabriel R. Silva
Juiz de Fora, 19.06.07


2 COMENTÁRIOS:

Ricardo - Caranga disse...

Fala primo sumido, descobri vc perdido aqui no mundo dos blogs tb! Fiz um essa semana, tava com saudades disso.... Formou né? que ótimo! vi as fotos no álbum da tia. Ow, adorei esse texto! No melhor estilo Rubens (ou Rubem, esqueci) da Fonseca! Lança um livro que eu compro! adios, abração ae

Nanda. disse...

Adoreeeei. Muito bom muito bom muito bom. :D