Maria era pobre. Pobre e batalhadora. Sabia de onde era, de onde viera: era do povo, era Maria. E Maria “é o som, é a cor, é o suor!”, como diz o Bituca... Maria era linda! Daquelas que encantava a todos só com o olhar... “um dom, uma certa magia”...
E Maria era garota “de responsa”: era forte, decidida, mas também sabia ser humilde, meiga. Tinha o poder de transmitir respeito por onde passava, mas acima de tudo transmitia uma paz... A paz de quem sonha, de quem ama!...
Maria ainda não era casada, é verdade, mas seu noivo, o Zé, homem de fé, entendeu o lado dela, e deu todo o apoio de que ela poderia precisar. “Estamos nessa juntos pro que der e vier”, disseram.
E o que “deu e veio” não foi nada, nada bom: num mundo de individualismos onde todos só olham pro seu umbigo, pobre só tem vez quando consegue se unir
E depois os três tiveram de enfrentar a crueldade do governo, que tá sempre querendo arrumar um jeito de diminuir a quantidade de pobres do mundo... Mas Zé e a Maria foram vivos! Não tinham muito estudo, mas eram espertos, inteligentes, sábios! Fizeram tudo pelo filho, não era qualquer um que iria conseguir acabar com a vidinha dele, não!... E foram levando assim a vida, batalhando, nunca pensando em perder a fé. E construíram uma família linda, a custo de muito suor e amor!
E o filho virou um grande homem, mas grande mesmo, daqueles de dar orgulho a qualquer mãe. Às vezes ele parecia meio ríspido com ela, é verdade... Mas ela não ligava: “os filhos a gente cria é para o mundo, não é mesmo?” Ela sabia que a missão dele era maior. E além do mais ele nunca a deixou desamparada, nunca deixou de atender o que ela pedia...
E, de mãe, ela se tornou sua maior admiradora. E Maria sabia que ele queria era isso mesmo: mais que uma genitora, uma companheira. Mais que parentes de sangue, o cara buscava era parceiros, pessoas que compartilhassem seus ideais. E Maria estava sempre ali pro que desse e viesse, verdadeira irmã, amiga de fé, camarada!
E Maria estava ali. Estava ao lado dele na hora em que ele mais precisou, na hora em que todos sempre clamam pela mãe. Sua dedicação de mãe também foi proporcional à coragem do filho, à vontade que ele tinha de fazer o que tinha de ser feito. O filho, pra ela, era mais importante que si mesma, e isso fazia sua vida ter sentido. Nisso consistia sua felicidade, mesmo que tivesse de deixar tudo pra trás pra sofrer ao lado dele. É como se diz, “quem traz no corpo a marca ‘Maria’ mistura a dor e a alegria”...
“Marca Maria”: a marca do amor. Do amor puro, desprendido, imenso, ágape. De quem sabe que dar a vida pelos outros é a melhor forma de dizer que gostamos de viver...
E ela sofreu a pior dor que uma mãe pode sofrer: viu seu filho morrer, sem poder fazer nada. Da forma mais cruel possível, da forma mais injusta, daquele jeito que revolta até o último fio de cabelo, dá vontade de gritar, de urrar, de explodir, de quebrar tudo! Mas Maria sabia que “é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana, sempre! Quem traz no corpo essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida!”
Mas aí começaram a desvirtuar as coisas. Começaram a exagerar na sua veneração, começaram a usar seu prestígio para justificar a dominação dos poderosos. Sua imagem foi transformada numa espécie de rainha que, de pobre e guerreira, não tinha nada. Matavam e exploravam em nome de Maria! Se esqueceram de quem foi aquela mulher... E foi assim por muito tempo...
Mas eis que um dia, alguém encontra uma estatueta feita em homenagem a ela, mas com a cor do povo. Uma Maria negra, preta mesmo! Numa época em que o negro nem era considerado gente, era como se Maria renascesse pra dar o seu recado: “se vocês me amam tanto, que amem o povo. Porque eu sou do povo!”
E aí foi aquela festa, todos foram obrigados a recordarem da verdadeira Maria. E chamaram-lhe de “Cida”. Cidinha, “uma força que nos alerta”, que vem nos lembrar que o ser humano não tem raça. Que ser pobre não é doença, que o fato de ser simples não deve impedir ninguém de ter dignidade, de ser feliz – muito pelo contrário! E que discriminar seus “filhos” era discriminá-la mais uma vez!
E mais uma vez se lembraram da Maria e a admiraram. E uma nação inteira se rendeu à sua mensagem. E fizeram grandes construções em homenagem à Cidinha, grandes obras em sua memória. E coroaram sua imagem com uma enorme coroa dourada, botaram-lhe um grande manto de veludo azul com detalhes dourados. E fizeram cópias e mais cópias daquela imagem, devidamente coroada e “imantada”, pra que todo mundo se lembrasse dela.
Hoje é difícil, inclusive, lembrar-se que Cidinha é negra, é do povo. O manto lhe cobre todo o corpo; o pouco de negritude que sobra na imagem é ofuscado pelos belos detalhes dourados. E há muita riqueza, hoje, em torno do nome da Cidinha. Muito comércio estranho, muita coisa rolando. E, paralelo a isso, há cada vez mais pobre sem o direito de ter esperança, mais gente “que ri quando deve chorar e não vive, apenas agüenta!”...
Por mais que tenham sido boas as intenções de quem fez tanto estardalhaço em cima dela, o fato é que hoje poucos têm na Maria, na Cidinha, o ideal de mulher que ela realmente foi. Parece mais uma imagem estática, indefesa, que nada pode fazer a não ser chorar diante de tudo o que se faz ao seu redor. E usam-na como amuleto pra problemas do cotidiano, pequenas e grandes curas atribuídas a ela. Mas cadê aquela mulher guerreira, batalhadora, pobre de espírito e de luxos, disposta a doar-se pelo filho, sem perder sua singeleza, sua doçura, sua pureza de mãe?
Onde está a Maria? O que fizeram com a Cidinha?!...
“mas é preciso ter manha, é preciso ter graça, é preciso ter sonho sempre!”...
Gabriel Resgala
JF, 29.08.06

2 COMENTÁRIOS:
Que lindo Gabriel!
Seu texto me emocionou muito!Que Deus abençoe e alimente esse do tão lindo que Ele te deu,de transformar seu sentir e seu pensar
em palavras tão tocantes...Um abraço!
Puxa, obrigado... valeu mesmo, que ele te abençoe também!
Mas.. quem é você? rsrsrsrs...
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