segunda-feira, 10 de março de 2008

E a vida continua...

Segue este texto antigo, mas que ainda me faz refletir bastante...



Minha cachorrinha morreu.


Enquanto alguns riem, e fazem piadinhas como que tentando me “consolar” (ou levar na brincadeira, já que gente normal não esquenta a cabeça por causa de um bicho que deixa de existir), eu fico aqui, sentindo a casa vazia e a falta que uma criaturinha “inferior” me faz...

Não, não gosto de sentimentalismo. Tenho horror... acho que nosso sentimento deve ser real, devemos lutar por aguçar nosso senso de realidade. Sentir o que deve ser sentido. Chorar quando algo é triste. Pular de alegria quando é bom. Soltar fogo pelas ventas quando é revoltante. Mas que o sentimento tenha sentido!

Por isso tento avaliar, “realisticamente”, o que eu - e todos os que conheceram a nossa querida Dhara - estamos sentindo. Minhas irmãs choraram, e ainda choram. Minha mãe, como sempre, se faz forte pra agüentar a barra aqui dentro de casa. Meu pai, com sua imagem “racional”, após ter passado tudo o que passamos com o sofrimento da bichinha, acabou soltando que não sabe se vai querer mais ter cachorro em casa.... não sabe se vale a pena, a gente acaba se envolvendo muito. E eles não duram muito tempo...

E eu, na minha mania de refletir sobre tudo, me atrevo a pensar se com as pessoas também não seria assim. Nunca sabemos o quanto ainda vamos conviver com alguém... Podemos ficar esperando alguém ir embora durante anos, e nesse tempo terminal essa pessoa ainda nos dar muitas lições, ensinar muito... como foi com João Paulo II, que deu tantas lições ao mundo com seu sofrimento. Ou podemos perder alguém em poucos segundos, sem que tivéssemos a mínima idéia de que, um dia, aquela pessoa pudesse morrer. Como foi com um padrinho meu, há algum tempo.

Em ambos os casos, a comoção foi grande. Acredito que não tanto pelo sobressalto e pelo mistério da morte... pois morte tem todo dia. Basta viver perto de um local violento, hospital ou asilo, ou mesmo ler o jornal pra ver como ela é algo banal. A morte não tem sentido, aos nosso olhos humanos. O que mais comove é a vida.

Sim, uma vida que tenha valido a pena. Uma vida que tenha feito a diferença. Uma vida que tenha marcado profundamente quem se encontrou com ela, nem que seja por um sorriso ou um jeito de ser diferente daquele ser especial... Só uma vida dessas é capaz de levar multidões inacreditáveis para um funeral no vaticano, ou mesmo algumas centenas de pessoas a uma roça no meio do nada, como foi no enterro do meu padrinho. Uma vida que comove, e que a gente sabe desde já que vai fazer muita falta...

Pois hoje, ao chegar em casa quase uma semana depois de meu pai ter enterrado sozinho o que restou da Dhara, sentindo tudo um pouco diferente, sentindo um vazio meio que inexplicável, e o coração bater mais forte quando olho pra varanda e não vejo aquele rabinho (ou melhor, rabão) abanando, aqueles olhinhos tão cativantes a acompanhar meu movimento, aquela coisinha preta deitada, querendo nada mais que se sentir perto de nós – pessoas a quem ela tinha um sentimento tão nobre, tão inexplicável –, eu penso se não devemos nos dar o direito de se enlutar também por uma vida “irracional” (?) que tenha marcado a nossa. Digo, sem medo de ser sentimentalista ou piegas, que amava a Dhara. Sim, ela não tinha nada demais, não era nenhum prodígio em inteligência ou truques caninos, mas transmitia paz por onde passava. Ela não era só um poço de instinto querendo ser fiel ao dono por demonstrar um “comportamento mais proveitoso à sobrevivência do indivíduo e da espécie”, como diria nosso amigo Darwin. Era muito mais que isso. Quem a conheceu sabe...

Pois eu dedico àquela criaturinha tão especial tudo o que estou sentindo, e que sei que muitos também estão, no seu silêncio. Me redimo de não ter, talvez, feito tudo o que poderia ter feito por ela (inclusive passeado mais com ela na rua, pra exercitar melhor aqueles pequenos músculos e, quem sabe, ter aliviado um pouco todo o sofrimento pela qual ela passou). Á memória da Dhara, todo seu merecido luto - independente de existir ou não um “céu pra cachorro” ou coisa parecida.

Não pelo “direito de se entristecer”...

Mas pelo direito de poder curtir bem curtido, com todas as dores e delícias a que se tem direito, tudo - e todos - a que amamos nesta vida.


Gabriel Resgala
Carangola, 07/05/05

2 COMENTÁRIOS:

Anônimo disse...

olá,
irmão consanguíneo, tudo beleza? e a família por aí?
então maneiro o teu texto...
RESGALA era KATTAR acho que algo assim, o Nãna havia me dito uma vez sobre isso...
Abraços,

Renato Resgala Jr.

Lívia Guimarães Gussen disse...

Concordo com você: "o que mais comove é uma vida" - independente da racionalidade que a conduziu. Acredito que todas as perdas mereçam luto, na medida certa e acredito que você dose bem!