Mais uma ida ao terraço de madrugada. Desta vez foram os pernilongos, senhores da noite, que não querem que eu durma, mesmo eu insistindo com eles que tenho de acordar cedo amanhã não por querer, mas por um dever cívico: fui convocado pra ser mesário nas eleições. Mas não adianta. Pernilongos são tão irredutíveis quanto a Justiça Eleitoral.
Desta vez não chove, a paisagem não soa tão onírica (que palavra chique pra dizer que “algo parece saído de um sonho”, né...). Desta vez há mais movimento: um ou outro pedestre passando, os carros correndo, os táxis não param no ponto: noite de sábado, todo mundo curtindo a vida. Pé no parapeito, a obrigatória olhada ao redor, a sensação de liberdade. Súbito, me lembrei de um amigo que, certa vez, me fez aquela clássica pergunta do ateu pro cristão: “como seguir a Deus pode ser uma atitude livre, se ele castiga quem pecar? Que liberdade é essa?”
Cena de filme: um jovem, um parapeito no alto de um prédio infinitamente mais alto que o meu, uma vida que já não suporta mais tanta angústia. A vista espetacular, o coração batendo todos os recordes de batidas por minuto, a vertigem, a vontade de sentir o vento contra o rosto numa velocidade inédita, uma última emoção, tão extrema quanto fatal. A voz que Cristo ouviu dentro de si: “Que Deus é esse, que se você pular não vai mandar um anjo pra te segurar? Não é ele quem pode tudo? Não é ele que te ama infinitamente?? Pois pule e peça para que ele te segure, se ele for mesmo Deus!”
O jovem pára, respira, fecha os olhos por um segundo. Um segundo.
“Se Ele pode tudo, vai fazer melhor. Vai fazer eu não ter vontade de pular”.
Isso é liberdade. É poder pular, mas não querer! Pecar nada mais é que dar um pequeno pulo, desistir momentaneamente de alguma coisa que achamos que não é da conta de Deus. O castigo é a própria conseqüência do ato, é o chão que vem depois da queda, por mais emocionante que ela seja. É a conseqüência da liberdade de poder pular. O que Deus não faz é tão somente interferir na nossa liberdade; se conseguirmos entregar-Lhe tudo, até mesmo a nossa vontade, até nela Ele age. Age segundo a vontade dEle, que fique bem claro. Mas e daí? Eu lá sei controlar minhas vontades... quem dera Ele controlasse tudo, creio que ia fazer menos burrada na vida...
Errar faz parte. Todo mundo cai. Mas nem todo mundo pula...
Só sei que é bom demais ser livre. Um dia ainda quero ser tão livre a ponto de não ser apegado nem às coisas que mais me fazem me sentir livre. Creio que foi isso que Jesus quis dizer que era preciso renunciar a tudo, posses, profissões, até mesmo à sua família, à sua própria vida. Ora, ele não valorizava a vida? Claro que sim!! Chorou quando o amigo morreu, suou sangue quando sabia que ia morrer. O cara amava a vida, demais da conta! Mas é por isso mesmo que dizia que não devemos nos apegar nem a ela. Nem ao que há de mais valioso. Pois a maior das liberdades é saber que há algo maior até mesmo que essa nossa vidinha aqui nesse universo, que por enquanto é o máximo que conseguimos entender...
Quando eu era criança o parapeito me protegia, pois não sabia que pular era ruim, vai que eu achava que era o Super-Homem, como nosso amigo Nietzche. Mas, quando eu crescer, o parapeito não me segurará mais, nada me impedirá de pular, mas aí já serão outros quinhentos. Será o dia em que vou dizer: “Hoje eu não quero pular. Nem um pulinho de nada. Hoje eu sou livre.”
Rezei para que este dia chegasse. E rezei por meu amigo, que nasceu em Liberdade.
Desta vez não chove, a paisagem não soa tão onírica (que palavra chique pra dizer que “algo parece saído de um sonho”, né...). Desta vez há mais movimento: um ou outro pedestre passando, os carros correndo, os táxis não param no ponto: noite de sábado, todo mundo curtindo a vida. Pé no parapeito, a obrigatória olhada ao redor, a sensação de liberdade. Súbito, me lembrei de um amigo que, certa vez, me fez aquela clássica pergunta do ateu pro cristão: “como seguir a Deus pode ser uma atitude livre, se ele castiga quem pecar? Que liberdade é essa?”
Cena de filme: um jovem, um parapeito no alto de um prédio infinitamente mais alto que o meu, uma vida que já não suporta mais tanta angústia. A vista espetacular, o coração batendo todos os recordes de batidas por minuto, a vertigem, a vontade de sentir o vento contra o rosto numa velocidade inédita, uma última emoção, tão extrema quanto fatal. A voz que Cristo ouviu dentro de si: “Que Deus é esse, que se você pular não vai mandar um anjo pra te segurar? Não é ele quem pode tudo? Não é ele que te ama infinitamente?? Pois pule e peça para que ele te segure, se ele for mesmo Deus!”
O jovem pára, respira, fecha os olhos por um segundo. Um segundo.
“Se Ele pode tudo, vai fazer melhor. Vai fazer eu não ter vontade de pular”.
Isso é liberdade. É poder pular, mas não querer! Pecar nada mais é que dar um pequeno pulo, desistir momentaneamente de alguma coisa que achamos que não é da conta de Deus. O castigo é a própria conseqüência do ato, é o chão que vem depois da queda, por mais emocionante que ela seja. É a conseqüência da liberdade de poder pular. O que Deus não faz é tão somente interferir na nossa liberdade; se conseguirmos entregar-Lhe tudo, até mesmo a nossa vontade, até nela Ele age. Age segundo a vontade dEle, que fique bem claro. Mas e daí? Eu lá sei controlar minhas vontades... quem dera Ele controlasse tudo, creio que ia fazer menos burrada na vida...
Errar faz parte. Todo mundo cai. Mas nem todo mundo pula...
Só sei que é bom demais ser livre. Um dia ainda quero ser tão livre a ponto de não ser apegado nem às coisas que mais me fazem me sentir livre. Creio que foi isso que Jesus quis dizer que era preciso renunciar a tudo, posses, profissões, até mesmo à sua família, à sua própria vida. Ora, ele não valorizava a vida? Claro que sim!! Chorou quando o amigo morreu, suou sangue quando sabia que ia morrer. O cara amava a vida, demais da conta! Mas é por isso mesmo que dizia que não devemos nos apegar nem a ela. Nem ao que há de mais valioso. Pois a maior das liberdades é saber que há algo maior até mesmo que essa nossa vidinha aqui nesse universo, que por enquanto é o máximo que conseguimos entender...
Quando eu era criança o parapeito me protegia, pois não sabia que pular era ruim, vai que eu achava que era o Super-Homem, como nosso amigo Nietzche. Mas, quando eu crescer, o parapeito não me segurará mais, nada me impedirá de pular, mas aí já serão outros quinhentos. Será o dia em que vou dizer: “Hoje eu não quero pular. Nem um pulinho de nada. Hoje eu sou livre.”
Rezei para que este dia chegasse. E rezei por meu amigo, que nasceu em Liberdade.
Gabriel Resgala - JF, 26.10.08

1 COMENTÁRIOS:
Eu queria ter um terraço neste momento...
Queria poder verborragiar...
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