sexta-feira, 8 de maio de 2009

O caro e o banal

_ Padre! Por favor!
A voz ressoou pela igreja, acompanhada do barulho dos sapatos no piso antigo; uma velhinha ajoelhada no primeiro banco franziu a testa.
_ Padre?!
A velhinha olhou para trás, já com um olhar meio azedo. Quem ousava falar alto dentro da igreja, ainda por cima atrapalhando sua reza?
_ Me desculpe, eu queria falar com o padre.
O homem não devia passar dos trinta, apesar da cara de quem parece não se cansar de estar sempre cansado. Terno sem paletó, pasta de executivo, gotas de suor na testa: roupa de trabalho.
_ Psit! Num tá vendo que ele tá atendendo confissão?
O homem olhou de novo para o padre sentado ao lado do altar, e só então reparou que ele estava a conversar intimamente com um senhor negro trajando uma roupa de operário, suja de pó. Não se parecia com as confissões que ele via na TV.
_ Ué... mas ele não usa o confessionário não?...
A velhinha riu:
_ Ih, meu filho... faiz tempo que ninguém usa aquele negócio lá... Aquilo é da minha época. A gente ficava tudo ajuelhado do lado de fora, nem via a cara do padre... Agora os tempos mudaram, esses padre muderno diz que gosta de sentá do lado da gente... hehehe...
_ Hum, sei...
_ O sinhô qué falá com o padre Lucas?
_ Hum... sim! Quero dizer.... queria conversar com um padre, pode ser ele.
_ Ah, tá... Também vai aporveitá o horário de armoço pra confessá, né?
_ Não! Quer dizer... só queria ter uma conversa com ele...
_ Sei. Faiz o siguinte, meu filho: pega esse terço aí e me faiz companhia na reza um bucadim... Só falta dois mistério.
_ Falta o quê?
_ Dois mistério glorioso. Ih, já vi que faiz tempo que ocê num reza o terço, heim? Sua vó num te ensinô não? Hihihi...
_ Mas...
_ Senta aqui, fio. Óia, ocê vai tê que isperá memo... e ainda tem mais dois na fila pra confessá, óia lá.
O homem nem olhou pra fila, estava vendo que não valeria a pena, ia desistir, tinha mais o que fazer. Tentou ser simpático enquanto virava as costas:
_ Não, obrigado, não estou com tempo. Eu volto outra hora...
_ Tá bão... – a velhinha deu de ombros. Mais se ocê num tem tempo pra Deus, dispois num vai querê que ele tenha tempo procê, viu?...
E voltou a rezar.
O homem parou. Que velhinha atrevida, que vontade de mandá-la pra... “Bem feito pra mim, onde fui me enfiar!”, pensou.
Olhou para cima. Da parede acima do coro uma mulher penetrava-lhe o fundo dos olhos, num misto de piedade e repreensão – seria Michelangelo?...
Suspirou. “Ok, ok... Não tenho nada a perder, mesmo...” Deu meia-volta e sentou-se no banco atrás da velhinha. Desligou o celular e, sem perceber, se viu repetindo as orações que ela ditava, baixinho...
E, em meio àquelas rezas da época de infância, uma sensação estranha foi de novo tomando conta do seu ser. Aqueles pensamentos voltavam, vinham como que fantasmas. O suor voltava frio na testa, nas mãos, nos pés. O tremor era inevitável, a pressão abaixava, começava a ficar tonto. Aquelas imagens assolando sua mente naquela cobrança por algo que ele não sabia ao certo o que era, o coração disparando, a ansiedade exigindo uma ação imediata, tinha que se levantar, ir embora dali!
_ Vai lá que tá na hora!
_ Heim?
_ A Dona Rosa já cabô de confessá, é a sua veiz, fio!
Despertou de repente, olhou para o padre, que o esperava. Quanto tempo tinha ficado ali? Ergueu-se meio cambaleante, e se dirigiu à cadeira de confissão. Não saberia descrever o que se passava em sua cabeça neste momento. Talvez não se passasse nada...
_ Bom dia, seu padre.
Era um padre jovem, aparentava ter somente um pouco mais que a sua idade.
_ Bom dia...
_ Olha só, eu não queria bem “me confessar”, não... Eu queria mais é ter uma conversa... tirar uma dúvida, sabe?
_ Hum, deixe-me ver... – o padre lançou um olhar pro móvel antigo encostado na parede, constituído na parte inferior por pêndulos e na superior pelo corpo do relógio (como poderia funcionar tão bem, sendo tão antigo?). Tudo bem... já acabou o horário de confissão, não tem mais ninguém na fila, e estou com o tempo livre até as duas horas.
O homem sorriu.
_ Nem precisa tanto, seu padre, não quero tomar o seu tempo... Ainda é meio-dia e meia, vai ser só uma conversinha rápida... e eu também não estou com tanto tempo assim, sabe...
_ Hum-hum – consentiu o padre.
Um segundo de silêncio. Ambos sabiam, no fundo, que não iria ser só uma “conversinha”. O homem, por tudo o que carregava consigo; o padre, pelo que via nos olhos do outro.
_ Então vamos lá, seu padre... é que... – tinha que afastar aquelas sensações, agora não! – Bem, eu gosto de ir direto ao assunto, não sou alguém que gosta de rodeios, sabe?... Mas é que...
Sorriu de novo. Estava visivelmente confuso.
_ Seu padre, eu não sei por onde começar...
O padre olhou para aquele homem, a cabeça abaixada após não conseguir manter o sorriso. Tentou passar um silêncio acolhedor, lembrou-se subitamente do significado de seu título: “padre”, pai.
_ Bem, é que...
Pausa. Os lábios tremendo, as mãos suando frio, inquietas, a esfregar-se nervosamente uma na outra. Suspiro profundo.
_ Padre, eu furei uma fila.
O padre continuou em silêncio, com a mesma expressão de quem medita profundamente sobre o que ouve. No fundo seria até interessante presenciar tamanho arrependimento por algo aparentemente tão banal, mas estava claro que não era só isso o que inquietava aquele homem...
O sujeito levantou a cabeça, e sorriu novamente.
_ O senhor deve estar achando estranho fazer tanto estardalhaço por causa disso, né?
Foi a vez do padre sorrir.
_ Nem tanto...
_ Como?...
_ O pecado não está no ato em si, mas no coração de quem o pratica.
_ ...
_ Pode chegar alguém aqui e dizer até que fez muita caridade, deu uma fortuna para os pobres. Mas dependendo da intenção que está no coração daquela pessoa, aquilo pode ser um pecado. E olha, tem muita gente pecando dessa forma por aí...
_ Ah, tá... Quer dizer que não existe mais aquele negócio de pecado leve e pecado grave, pecadão e pecadinho... é tudo subjetivo, né?...
O padre ficou mais sério.
_ A pergunta é...
Aquelas pausas do padre aumentavam ou diminuíam o nervosismo?
_ ... será que há algum “pecadão”... aí dentro? – e apontou o dedo para o peito do outro, sem perder a serenidade.
O homem estremeceu. Aquele padre estava incisivo demais.
_ Eu... – suspirou de novo. Eu não sei, padre. Sinceramente, eu não sei...
Abaixou a cabeça, os olhos começando a se lubrificarem. O silêncio durou um pouco mais, dessa vez.
_ A fila que eu furei. Era na rodoviária, pra comprar uma passagem de ônibus. O guichê estava lotado, eu estava com pressa, e não podia perder aquele ônibus, já estavam acabando as passagens... Na confusão, percebi uma moça que estava reclamando com outra mulher, ela estava meio afastada da fila, aproveitei sua distração e passei na frente sem que ela percebesse. Tive sorte, acabei comprando a última passagem daquele horário, a moça teve que ficar com o próximo ônibus. Vi que ela ficou um pouco chateada, mas ora bolas, eu tinha uma reunião importante, não podia me atrasar. E fui viajar despreocupado. Tive uma viagem tranqüila, uma reunião ótima, e voltei para casa na manhã seguinte.
Ergueu a cabeça, a voz pesada. O olhar fixo, já cheio d’água, quase transbordante:
_ No outro dia vi a notícia no jornal: o ônibus em que ela estava capotou. Aquela moça, padre, está neste momento num hospital. Entre a vida e a morte.
E uma lágrima teimosa conseguiu, enfim, molhar o piso centenário.


PS: O que é isso? Bem, digamos que certo dia (já faz um bom tempo) acordei com vontade de escrever uma história, mas por enquanto só tinha idéia de uma cena, que é essa aí. Sem saber como continuar. Talvez um dia, quem sabe, vire um livro ou algo do gênero, se alguém mais achar interessante e me ajudar a lapidar... Por que não? rs. Ou talvez continue sendo só um passatempo mesmo, uma brincadeira de "continue a história" que faço de vez em quando, cada vez escrevendo um capítulo.

Seja o que for, é legal. Boa fim de semana!...

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