
_ Então vou te contar a minha história, irmão. Presta atenção. Eu era um jovem normal, trabalhava, queria fazer faculdade, olha que desgraça! Eu era tranquilo, um cara que todo mundo gostava. Mas aí eu conheci o demônio, cara. O demônio em forma de pessoa. Uma menina que era um anjo no começo, quando a gente se conheceu. Era tudo maravilhoso, ela era sensacional, linda, um amor de pessoa... Durante um tempo foi tudo muito bom. Eu só queria fazer de tudo pra ela, mas ela tinha que corresponder, pô, tinha que ser só minha, tá ligado? Onde já se viu? E ela começou a fazer muito nhem-nhem-nhem, aquilo foi me irritando, eu tentei mostrar pra ela como as coisas são, ela era muito novinha, tinha que entender. Mas ela era teimosa, aquela praga. Menina mimada. Mas eu gostava dela, cara, eu amava ela como nunca amei ninguém nessa vida. E queria o melhor pra ela, queria que ela entendesse como eu amava ela, como eu queria ela junto de mim, que fazia aquilo tudo por amor, pô! Mas aí as coisas foram acontecendo, e quando eu dei por mim ela já não era mais o anjo da minha vida, era o demônio. Eu amava o demônio. Minha vida ficou um inferno. Eu não sabia mais o que fazer, cara. Não sabia mais como viver sem ela, não existia essa possibilidade. Ela me conquistou, aquela filha da... Com o perdão da expressão, irmão. Mas ela fez porque quis, eu não forcei nada. Ela me seduziu, e conseguiu me deixar fraco e sem chão como eu nunca fui na vida, o que eu sentia era amor de verdade, se é que isso existe, cara. E ela fez de propósito. Queria me conquistar, me fisgou que nem lambari no anzol, e depois quando a coisa ficou complicada queria me largar sem mais nem menos, dizia que a culpa era minha. Ah, irmão... veja só, não tinha como, não existia essa possibilidade. A gente era um do outro, pra mim só existia ela, e sei que ela gostava de mim também, pô. Mulher é um bicho estranho, parece que não pensa. Ou pensa, e faz as coisas de propósito só pra irritar a gente. E ela conseguiu, viu cara? Fez tanto charme, que conseguiu me deixar louco, nervoso, maluco com uma intensidade que eu nunca fui. Quanto mais eu brigava com ela, falava pra ela parar com aquilo, mais ela me infernizava. Me esnobava, dava bola pra outro na minha frente. Ela queria me deixar completamente pirado, e conseguiu. Chegou num momento que eu não tive escolha, irmão. Tinha que acabar com aquilo tudo. Eu tava maluco, tava sem vida. E tinha que acabar com aquele demônio que me deixou assim, não via mais jeito. Planejei tudo, avisei ela, dei chance, mas aí é que ela me xingou mais ainda, fez o diabo, disse que ia na polícia. Mas eu sabia que ela não ia, só queria me infernizar. Aí fui no apartamento dela numa hora que ela tava sozinha, ela atendeu, chutei a porta, fui direto pegar a arma que eu sabia onde o pai dela escondia, e falei que pronto, tava na hora de acabar tudo. Que aquilo era por tudo o que ela já tinha feito comigo. Era o destino, não tinha jeito. Eu nunca tinha pegado numa arma na minha vida, cara, mas naquela hora parecia que eu sabia exatamente o que devia fazer. Era como se só houvesse aquela alternativa, estava tudo escrito. Ela chorou, eu falei que não adiantava mais, ela falou que voltava pra mim, mas eu falei que sabia que era mentira, que ela tava falando só pra não morrer. Eu falei que não ia matar ela, porque morto não mata, e eu já tava morto por dentro. Eu ia só ia levar ela pra onde ela deveria ir, pro lugar dela. Nem sei por que eu falei aquilo, eu tava transtornado... Aí eu fiz o serviço. Só queria acabar com a vida dela, e fiz isso. Não sabia o que viria depois, mas na hora senti o que devia ser feito. Quando eu vi o corpo dela caído ali, cara, aquele corpinho que eu amava tanto, eu sabia o que era pra fazer depois. Minha vida já estava acabada, era só apontar pra testa e terminar o serviço. Não senti nem medo, remorso, nada: era como se tudo já tivesse escrito. Mas aí chegou um mané, um sem noção que quis dar uma de herói, se jogou em cima de mim, quase morreu também o idiota, mas ele era mais forte, conseguiu atrapalhar tudo. E eu vim parar aqui. Nem tenho esperança de sair. Pra quê? Não tenho mais vida lá fora. Nem quero ter. Eu devia é estar junto com ela no inferno... Agora sou um zumbi, sem vida, nem nada. Não era pra eu estar aqui. Aliás, nem era pra minha vida ter acabado. Eu era um cara normal, se você viesse falar de Jesus pra mim naquela época, eu ia te ouvir sem problema, eu gostava de ouvir. Mas foi culpa do demônio. Daquele demônio. Mulher não é coisa de Deus, irmão. Não é não....
_ Mas... e se fosse a sua filha?
As expressões foram mudando, até ele entender a profundidade da pergunta. Demorou alguns segundos para responder.
_ Se fosse minha filha... eu ia acabar com a raça do desgraçado que fizesse isso com ela.
_ Então ela não seria um demônio...
_ Não, ela era um amor de pessoa, era um anjo. O demônio ia ser o filha da puta que ousasse encostar a mão nela...
Silêncio.
- Quer saber, irmão? O Demônio tá é dentro de cada um. De todo mundo. Ele tá só esperando a deixa dele pra tomar conta da gente. É só a gente deixar...
_ Mas Deus também está.
_ Pode ser, irmão. Pode ser...

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