quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Demônios

_ Então vou te contar a minha história, irmão. Presta atenção. Eu era um jovem normal, trabalhava, queria fazer faculdade, olha que desgraça! Eu era tranquilo, um cara que todo mundo gostava. Mas aí eu conheci o demônio, cara. O demônio em forma de pessoa. Uma menina que era um anjo no começo, quando a gente se conheceu. Era tudo maravilhoso, ela era sensacional, linda, um amor de pessoa... Durante um tempo foi tudo muito bom. Eu só queria fazer de tudo pra ela, mas ela tinha que corresponder, pô, tinha que ser só minha, tá ligado? Onde já se viu? E ela começou a fazer muito nhem-nhem-nhem, aquilo foi me irritando, eu tentei mostrar pra ela como as coisas são, ela era muito novinha, tinha que entender. Mas ela era teimosa, aquela praga. Menina mimada. Mas eu gostava dela, cara, eu amava ela como nunca amei ninguém nessa vida. E queria o melhor pra ela, queria que ela entendesse como eu amava ela, como eu queria ela junto de mim, que fazia aquilo tudo por amor, pô! Mas aí as coisas foram acontecendo, e quando eu dei por mim ela já não era mais o anjo da minha vida, era o demônio. Eu amava o demônio. Minha vida ficou um inferno. Eu não sabia mais o que fazer, cara. Não sabia mais como viver sem ela, não existia essa possibilidade. Ela me conquistou, aquela filha da... Com o perdão da expressão, irmão. Mas ela fez porque quis, eu não forcei nada. Ela me seduziu, e conseguiu me deixar fraco e sem chão como eu nunca fui na vida, o que eu sentia era amor de verdade, se é que isso existe, cara. E ela fez de propósito. Queria me conquistar, me fisgou que nem lambari no anzol, e depois quando a coisa ficou complicada queria me largar sem mais nem menos, dizia que a culpa era minha. Ah, irmão... veja só, não tinha como, não existia essa possibilidade. A gente era um do outro, pra mim só existia ela, e sei que ela gostava de mim também, pô. Mulher é um bicho estranho, parece que não pensa. Ou pensa, e faz as coisas de propósito só pra irritar a gente. E ela conseguiu, viu cara? Fez tanto charme, que conseguiu me deixar louco, nervoso, maluco com uma intensidade que eu nunca fui. Quanto mais eu brigava com ela, falava pra ela parar com aquilo, mais ela me infernizava. Me esnobava, dava bola pra outro na minha frente. Ela queria me deixar completamente pirado, e conseguiu. Chegou num momento que eu não tive escolha, irmão. Tinha que acabar com aquilo tudo. Eu tava maluco, tava sem vida. E tinha que acabar com aquele demônio que me deixou assim, não via mais jeito. Planejei tudo, avisei ela, dei chance, mas aí é que ela me xingou mais ainda, fez o diabo, disse que ia na polícia. Mas eu sabia que ela não ia, só queria me infernizar. Aí fui no apartamento dela numa hora que ela tava sozinha, ela atendeu, chutei a porta, fui direto pegar a arma que eu sabia onde o pai dela escondia, e falei que pronto, tava na hora de acabar tudo. Que aquilo era por tudo o que ela já tinha feito comigo. Era o destino, não tinha jeito. Eu nunca tinha pegado numa arma na minha vida, cara, mas naquela hora parecia que eu sabia exatamente o que devia fazer. Era como se só houvesse aquela alternativa, estava tudo escrito. Ela chorou, eu falei que não adiantava mais, ela falou que voltava pra mim, mas eu falei que sabia que era mentira, que ela tava falando só pra não morrer. Eu falei que não ia matar ela, porque morto não mata, e eu já tava morto por dentro. Eu ia só ia levar ela pra onde ela deveria ir, pro lugar dela. Nem sei por que eu falei aquilo, eu tava transtornado... Aí eu fiz o serviço. Só queria acabar com a vida dela, e fiz isso. Não sabia o que viria depois, mas na hora senti o que devia ser feito. Quando eu vi o corpo dela caído ali, cara, aquele corpinho que eu amava tanto, eu sabia o que era pra fazer depois. Minha vida já estava acabada, era só apontar pra testa e terminar o serviço. Não senti nem medo, remorso, nada: era como se tudo já tivesse escrito. Mas aí chegou um mané, um sem noção que quis dar uma de herói, se jogou em cima de mim, quase morreu também o idiota, mas ele era mais forte, conseguiu atrapalhar tudo. E eu vim parar aqui. Nem tenho esperança de sair. Pra quê? Não tenho mais vida lá fora. Nem quero ter. Eu devia é estar junto com ela no inferno... Agora sou um zumbi, sem vida, nem nada. Não era pra eu estar aqui. Aliás, nem era pra minha vida ter acabado. Eu era um cara normal, se você viesse falar de Jesus pra mim naquela época, eu ia te ouvir sem problema, eu gostava de ouvir. Mas foi culpa do demônio. Daquele demônio. Mulher não é coisa de Deus, irmão. Não é não....

_ Mas... e se fosse a sua filha?

As expressões foram mudando, até ele entender a profundidade da pergunta. Demorou alguns segundos para responder.

_ Se fosse minha filha... eu ia acabar com a raça do desgraçado que fizesse isso com ela.

_ Então ela não seria um demônio...

_ Não, ela era um amor de pessoa, era um anjo. O demônio ia ser o filha da puta que ousasse encostar a mão nela...

Silêncio.

- Quer saber, irmão? O Demônio tá é dentro de cada um. De todo mundo. Ele tá só esperando a deixa dele pra tomar conta da gente. É só a gente deixar...

_ Mas Deus também está.

_ Pode ser, irmão. Pode ser...

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Afinal, o que querem?

Uma amiga me pergunta (com ar um tanto misterioso) se eu estava acompanhando aquela série da Globo, “Afinal, o que querem as mulheres?”. Outra amiga desabafa no Twitter sua indignação com o último episódio, que parece não ter dado a tão esperada resposta. Homens aproveitam o assunto pra fazer infindáveis piadinhas, hilárias ou machistas...

Parece que, mais do que dar audiência pra uma obra “cult”, a Globo conseguiu com esse programa trazer à tona uma pergunta pra lá de milenar. Afinal, que homem nunca se perguntou o que afinal uma mulher quer dizer com tantos murmúrios, olhares, "não sei", "talvez" e japonês em braile? E que mulher nunca se esforçou para tentar ser compreendida – nem que seja por si mesma?...

Pois eu acho que a resposta, em termos de relacionamentos, pode ser mais simples do que se imagina. Sim, amigos e amigas: tentarei o sacrilégio de esquematizar, resumir, generalizar, simplificar essa questão... Quer dizer, simplificar mas ainda deixá-la complexa. Tipo assim:

Ora, as mulheres (ao menos as mulheres modernas "básicas", por assim dizer) querem que os homens saibam como lhes fazer felizes.

Ponto.

Simples assim? Pois é.

A complexidade... bem, a complexidade vem das implicações que esse “querer” representa. Vejamos:

- Felicidade é um conceito um tanto quanto subjetivo. Algo que faz uma pessoa feliz pode não significar nada pra outra pessoa. Meu pai, por exemplo, é chegado num jiló.

- Nem sempre as pessoas sabem exatamente o que é que lhes deixam felizes. Grande parte de nós fica a vida inteira nessa busca.

- Mesmo que tenha idéia de algumas coisas que lhe fazem feliz, uma mulher não gosta de dizê-lo. Prefere que o outro adivinhe. Né não?

- E um homem, mesmo que seja daqueles que dediquem sua vida a tentar fazer uma mulher feliz (sim, meninas, isso existe!), também é uma pessoa em busca de felicidade. Uma hora ou outra, se é um sujeito que se valoriza, ele vai ter seus próprios anseios, que nem sempre irão coincidir com os das mulheres...

Imagine então todas essas “complexidades” juntas, e mais algumas pra apimentar. Sim, é o caos. E se aproximará cada vez mais de um “inferno” quanto mais egoístas forem as pessoas envolvidas nessa relação... Ou se, mesmo sem tanto egoísmo, um duvidar do amor do outro pela dificuldade de entender as diferenças.

E, em meio às frustrações, não raro passa pela cabeça da mulher o famoso mantra: “os homens são todos iguais!”. Algumas logo afastam esse pensamento, mas outras acabam acreditando piamente nisso. E, aí, tudo o que um ser do sexo masculino fizer servirá para comprovar tal tese.

Mas ora, os homens não são iguais.

E é justamente quando a mulher percebe isso, que os homens são tão diversos e complexos quanto ela, mas têm formas bem diferentes de demonstrar, é que deixa de ser tão difícil para eles – e para ela própria – compreendê-la e fazê-la feliz.

É tudo uma questão de inteligência, de ambas as partes. De sabedoria de vida, eu diria. Para compreender as inevitáveis diferenças: muitas delas são de nascença, “cromossômicas”; outras herdadas da cultura e das experiências de vida nem sempre fáceis que cada pessoa, seja de que sexo for, enfrenta nessa sociedade.

É preciso valorizar o outro. É só procurando entender o outro lado e mergulhando na beleza de cada um que uma grande mulher encontrará o que realmente merece: um grande homem. Que a valorize, e consiga fazê-la feliz não pelo simples fato de ela ser mulher, mas por ser uma grande mulher...

Como? Bem, aí sugiro o Drummond, melhor do que essa minha prosa aqui. Porque falar de mulher, amigo, é impossível sem verso.

Dá não.